Entrevista Inês Guedes - Finalista Nacional FameLab '18

Inês Ferreira Guedes, finalista do FameLab Portugal, voltou aos lugares do pódio com um magnífico segundo lugar no concurso internacional de comunicação de ciência - Hall of FameLab - no Museu de História Natural em Londres, na passada sexta-feira.

No primeiro ano em que a organização do FameLab a nível nacional envolveu parcerias com Universidades e Centros de Ciência Viva de todo o país, Inês Guedes participou na eliminatória regional de Lisboa organizada pela NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas e do Pavilhão do Conhecimento, que a levou a um destaque internacional inesperado.

famelab.jpg  Final nacional no decorrer da National Geographic Summit no Coliseu dos Recreios de Lisboa

- O que te fez participar no FameLab Portugal?

O FameLab é um conceito que tenho na minha vida desde o início da minha vida académica. No entanto, começou a ganhar forma apenas no ano passado quando uma amiga mo apresentou devidamente e me mostrou que talvez fosse o concurso ideal para mim, na medida em que me desafia naquilo que mais gosto: Comunicar Ciência.

- Que significado tem para ti a participação neste concurso de comunicação de ciência?

Todo! Sou uma pessoa de muitos ofícios: da animação à investigação, passando pelo desporto e pelo teatro, há inúmeras coisas de que gosto e faço regularmente. O FameLab recordou-me que comunicar ciência deve continuar nos planos daquilo que devo e quero fazer por muitos e muitos anos.

- Qual foi o valor que esta iniciativa acrescentou ao teu percurso?

Participar num concurso como o FameLab é um constante desafio. As borboletas que se apoderaram do meu estômago quando enviei o vídeo de triagem para o concurso foram engolidos por répteis que me invadiram quando fui à eliminatória na NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas. As aves que se sobrepuseram aos répteis esvoaçavam loucamente no meu estômago quando da final regional, passei a pisar o palco do Coliseu dos Recreios. É indescritível o Jardim Zoológico todo que senti durantes estes meses. Mas melhor que o Jardim Zoológico, foi a experiência que tive, os contactos que fiz e as pessoas que conheci ao longo destes meses.

- Como reagiste ao convite para participares no Hall of FameLab em Londres?

Curiosamente, no momento em que fui convidada, estava na praia com uma amiga minha que, de forma ainda mais curiosa, foi a vencedora da edição do FameLab 2018. O entusiasmo foi tal, que perdi o telefone na areia. Por sorte, não estava ao pé da água… Mas mesmo que estivesse, ainda não fazia ideia do que me esperava.

- No que consiste o trabalho que apresentaste no Hall of FameLab?

Depois de muito pensar, no Hall of FameLab, contei a história da primeira tartaruga marinha que conheci. Chamava-se Mydas e era uma tartaruga verde…quando a encontrei o entusiasmo era tão grande por estar a ver uma tão esperada criatura daquelas que nem percebi logo que algo de errado se passava. Junto com a equipa comecei logo a fazer o que me indicavam para tentar salvá-la. A Mydas morreu. Quando fizemos a necrópsia, demoramos poucos minutos a perceber o que se passava. A Mydas ingeriu tanto plástico que morreu por inflamação generalizada no sistema gástrico. Sempre sonhei com o dia em que ia ver uma tartaruga marinha em liberdade pela primeira vez. O pesadelo em que se tornou fez-me pensar nela, em tudo o que isso envolve e, acima de tudo, falar sobre ela, até hoje. No dia 28 de setembro de 2018, contei a história da Mydas na Noite Europeia dos Investigadores a todos aqueles que me quiseram ouvir, deixando o alerta de que temos que fazer alguma coisa urgente no que toca ao nosso Planeta e à sua conservação.

- Na tua opinião, quais são os principais desafios da comunicação de ciência?

Ganhar o público é, sem dúvida, o desafio fundamental na comunicação de ciência. Falar para uma audiência desconhecida e encontrar elementos que os façam interessar-se pelo que dizemos, nem sempre é fácil de se conseguir.

Produzir conteúdo acessível para qualquer audiência, é também um enorme desafio. Por vezes, coisas que para os especialistas são óbvias, podem não fazer sentido ou, pelo menos, podem não fluir no raciocínio do público geral. Passar assuntos, conceitos ou terminologias específicas ao público é um desafio constante.

- Onde é que a comunicação de ciência pode fazer diferença na nossa sociedade?

Neste momento, acredito que faz toda a diferença. Reflito muitas vezes sobre isto e acho que chegamos a um ponto em que a distância entre profissionais de ciência (seja ela de que ramo for), bem como os seus conhecimentos, tem que começar a ser imensamente reduzida. Se não comunicarmos o que a ciência descobre, em primeiro lugar, deixamos de ser valorizados por aquilo que fazemos. Em segundo lugar, acredito que a ciência deve ser acessível a todos e por isso, tem que ser descomplicada. Descomplicar ciência é uma missão que tem que ser cada vez mais frequente.

 

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Eliminatória regional de Lisboa da NOVA Medical School e Pavilhão do Conhecimento no Auditório Manuel Machado Macedo

 

Inês Ferreira Guedes é licenciada em Biologia pela Universidade de Aveiro, instituição onde realizou também o seu mestrado em Biologia Marinha. Durante a sua formação académica teve oportunidade de desenvolver parte do seu projeto no Museu de História Natural em Londres. Atualmente, a Inês é Manager de Experiências de Natureza no Ozadi Tavira Hotel e proponente principal do projeto Viagens Pelo Nosso Mundo, uma coleção de Livros Científicos para crianças.